Vitor Davanzo
Planejamento financeiro · #6

Como se Preparar Financeiramente para Financiar um Imóvel

Financiar um imóvel é uma das formas mais eficientes de construir patrimônio, desde que venha com preparação. Veja o que organizar antes de assinar o contrato.

Por Vitor Davanzo, planejador financeiro CFP® ·

Existe uma ideia meio espalhada de que financiar um imóvel é, no fundo, um mal necessário. Que o ideal seria comprar à vista, e que quem financia está “pagando juros pro banco” por não ter conseguido outra alternativa. Eu discordo dessa leitura. Financiamento imobiliário é uma das ferramentas mais eficientes que existem para transformar renda em patrimônio, principalmente quando a alternativa é continuar pagando aluguel enquanto tenta juntar o valor total de um imóvel, o que para a maioria das pessoas significa nunca comprar.

O ponto não é se financiar é bom ou ruim. É que o resultado depende quase inteiramente de uma coisa: a preparação que vem antes de assinar o contrato. A mesma ferramenta que constrói patrimônio de forma consistente, com parcela cabendo no orçamento e reserva sustentando os imprevistos, pode virar anos de aperto quando a pessoa entra despreparada, olhando só para o valor da entrada.

Financiar um imóvel não é aprovar um crédito. É redesenhar o seu orçamento para as próximas décadas, e usar esse redesenho a seu favor. É por isso que a preparação financeira de verdade começa bem antes de simular no banco.

Por que financiar costuma ser mais inteligente do que esperar juntar tudo?

Vou direto ao ponto que sustenta essa tese, porque ele é mais simples do que parece. Um financiamento é uma dívida com prestação fixa (corrigida por um índice, mas fixa na lógica), enquanto o aluguel sobe todo ano, e o preço dos imóveis também. Esperar juntar o valor total de um imóvel enquanto se paga aluguel significa correr atrás de um alvo que se move mais rápido do que a maioria consegue poupar. Na prática, quem financia hoje trava o preço do imóvel no valor de hoje, mesmo pagando ao longo de décadas.

Tem também o lado da alocação de capital, que é onde entra o meu olhar como planejador. Se você tem R$ 450 mil disponíveis e paga um imóvel à vista, esse dinheiro inteiro sai de circulação de uma vez. Se você dá uma entrada de 20% ou 30% e financia o restante, o capital que sobrou continua rendendo, seja numa reserva, num CDB, no Tesouro, e pode inclusive ajudar a pagar parte das parcelas ou ser usado para amortizar o saldo nos momentos em que fizer mais sentido. Dessa forma você não se descaptaliza. Você faz a aquisição do imóvel, e continua tendo seu patrimônio financeiro com mais liquidez, que continua rendendo com seus investimentos e com maior liquidez (dependendo do produto aplicado), evitando surpresas financeiras.

E existe um efeito comportamental que também conta a favor do financiamento, mesmo sendo menos falado: a parcela obrigatória funciona como uma disciplina de poupança forçada. Quem aluga e pretende “juntar depois” frequentemente não junta, porque sobra menos prioridade pra isso do que parece no papel. Quem financia paga, quer queira quer não, e no fim do processo tem um patrimônio construído, não um comprovante de aluguel.

Nada disso é motivo para financiar sem critério, ou para tratar essa conta como garantida em qualquer cenário. É motivo para entender que o financiamento bem preparado não é o caminho de quem não conseguiu comprar à vista. Para a grande maioria das pessoas, é o caminho mais eficiente que existe. O que separa quem usa essa ferramenta a favor de quem sofre com ela é exatamente a preparação que vem a seguir.

A entrada é só uma parte da conta, não o ponto de partida

Quando o assunto é financiamento, a entrada costuma ser tratada como o obstáculo principal, o valor que separa quem pode comprar de quem não pode. Faz sentido, é o número mais visível. Mas ele é só uma parte de uma conta bem maior.

Em 2026, o cenário ficou mais favorável nesse ponto específico. Depois de um período em que bancos privados chegaram a exigir de 30% a 50% de entrada em imóveis usados, o mercado voltou a operar, na maior parte dos casos, com financiamento de até 80% do valor do imóvel no SFH/SBPE, o que na prática significa entrada mínima em torno de 20% (há exceções e modalidades que podem exigir mais ou permitir até 90%). O teto do Sistema Financeiro da Habitação (SFH) subiu para R$ 2,25 milhões, o que ampliou o uso do FGTS para imóveis de padrão médio-alto que antes ficavam fora dessa possibilidade, desde que observados os demais requisitos do fundo.

Isso é uma boa notícia, mas ela resolve só o primeiro degrau. O que eu olharia em seguida, antes de comemorar a entrada resolvida, é a parcela. Porque é ela, não a entrada, que vai conviver com você todo mês durante os próximos anos.

Quanto da sua renda o financiamento pode ocupar

A regra que os bancos usam para aprovar o crédito é conhecida: a parcela do financiamento não pode ultrapassar 30% da renda bruta familiar. Mas essa regra tem uma letra miúda que muita gente não considera na hora de se planejar.

Esse limite de 30% não é sobre a sua renda isolada, é sobre a sua renda depois de descontados outros compromissos que já pesam no seu orçamento. Um financiamento de carro, um limite de cartão usado com frequência, outro empréstimo ativo, tudo isso reduz a margem disponível para a parcela do imóvel.

Um exemplo direto. Uma família com renda bruta de R$ 12.000 por mês, sem outros compromissos, tem uma margem teórica de R$ 3.600 para a parcela. Se essa mesma família já paga R$ 900 de financiamento de um carro, a margem real cai para R$ 2.700. Não é o valor bruto da renda que define quanto você pode financiar. É o que sobra dela depois de tudo que já está comprometido.

A pergunta que eu faria antes de qualquer simulação não é “quanto eu ganho”, é “quanto da minha renda já está ocupado antes mesmo de eu pensar em imóvel”. Isso muda o valor do imóvel que faz sentido buscar, muitas vezes bem antes de você chegar ao banco.

O efeito que o prazo e a taxa têm sobre a parcela

Aqui entra uma conta que costuma surpreender quem está calculando pela primeira vez. Pegue um financiamento de R$ 360 mil, pela tabela SAC, com taxa de 11,5% ao ano mais TR, que é um patamar realista de mercado hoje. O prazo escolhido muda o resultado de um jeito que vale a pena ver lado a lado.

Em 20 anos (240 meses), a primeira parcela fica em torno de R$ 4.950, e o total pago em juros ao longo do contrato soma cerca de R$ 415 mil. Em 30 anos (360 meses), a parcela inicial cai para cerca de R$ 4.450, mas o total de juros sobe para aproximadamente R$ 622 mil. Em 35 anos (420 meses), a parcela fica ainda mais leve, perto de R$ 4.300, só que os juros pagos ao longo do contrato passam de R$ 726 mil.

Ou seja: esticar o prazo alivia a parcela hoje, mas encarece o financiamento como um todo, muitas vezes em mais da metade do valor do imóvel só em juros. Não existe resposta certa aqui, existe trade-off. Quem prioriza caber no orçamento agora tende a esticar o prazo. Quem prioriza pagar menos juros no total, e consegue sustentar uma parcela mais alta sem sufoco, tende a encurtar.

Vale um parêntese técnico que ajuda a entender o cenário atual. A Selic está em ciclo de queda, em 13,75% ao ano depois do corte de setembro, mas as taxas de financiamento imobiliário não caem no mesmo ritmo. Isso acontece porque boa parte do funding (origem ou captação dos recursos financeiros que os bancos e instituições usam para conceder empréstimos e financiamentos) desse crédito vem da caderneta de poupança, não do CDI, então a Selic influencia menos diretamente esse tipo de operação do que influencia, por exemplo, um CDB ou uma linha de crédito pessoal. Entender isso evita a expectativa de que uma queda na Selic vá se refletir imediatamente numa taxa de financiamento mais baixa.

Os custos que aparecem depois que a entrada já foi resolvida

Esse é o ponto que mais pega gente de surpresa, porque ele não aparece nas conversas informais sobre financiamento. Além da entrada, existe um conjunto de custos que precisa ser pago à vista, geralmente no momento da assinatura, e que não entra no valor financiado pelo banco.

O principal deles é o ITBI, o imposto municipal sobre a transferência do imóvel, que costuma variar entre 2% e 3% do valor de venda ou do valor venal, dependendo da cidade. Some a isso os custos de registro em cartório, que giram entre 0,5% e 1%, e eventuais taxas de avaliação do imóvel pelo banco, análise de crédito e documentação. No total, esse conjunto costuma somar entre 3% e 5% do valor do imóvel.

Em um imóvel de R$ 450 mil, isso representa algo entre R$ 13.500 e R$ 22.500 que precisam estar disponíveis fora da entrada, à vista, no momento do fechamento. Alguns bancos permitem incluir o valor do ITBI e do registro do imóvel junto ao financiamento, porém existem algumas regras e condições. Quando o banco libera um financiamento, ele está liberando um montante que corresponde ao seu perfil e a sua capacidade de pagamento. Se o banco libera R$450.000,00 de financiamento, e digamos que ITBI + registro fique em R$20.000,00. O valor disponivel para a compra do imóvel passa a ser de R$430.000,00.

Portanto, mesmo o banco apresentando a possibilidade de financiamento dessas taxas, é importante que você inclua esses custos junto com o valor da entrada.

A reserva que continua sendo necessária depois da compra

Tem uma lógica que costuma passar despercebida: a reserva de emergência não é algo que você usa para chegar até a compra do imóvel e depois esquece. Ela precisa continuar existindo depois, e em muitos casos precisa ser reconstruída, porque a entrada normalmente consome boa parte dela.

Isso importa porque, a partir do momento em que o financiamento começa, o seu orçamento fica mais rígido, não mais flexível. Uma parcela de R$ 4.000 ou R$ 4.500 por mês não perdoa um mês de renda menor, uma emergência médica, uma troca de emprego que demora mais do que o esperado. Sem reserva, qualquer imprevisto nesse período vira risco real de atraso, e atraso em financiamento imobiliário tem consequências que vão além do aborrecimento, incluindo a possibilidade de execução da garantia em casos extremos de inadimplência prolongada.

O critério que eu uso para pensar nisso é: antes de assinar o contrato, existe reserva suficiente para cobrir alguns meses de parcela, além dos custos normais de vida, mesmo considerando que parte do dinheiro guardado foi usado na entrada e no fechamento? Se a resposta é não, a preparação ainda não terminou, mesmo que o crédito já esteja aprovado.

Simular não é o passo final, é o primeiro

Aqui vale corrigir uma ideia que pode ter ficado no ar até agora. Simular no banco não é algo pra deixar pra depois, quando tudo já estiver redondo. É o contrário. O ponto de partida real costuma ser fazer várias simulações, com valores de imóvel, entrada e prazo variados, só pra entender o patamar que você está lidando de verdade: qual entrada cada instituição pede pro seu perfil, qual fica a parcela em cada prazo, qual taxa aparece na prática, e não só a taxa de propaganda.

Esse patamar é o que dá base real pra organização que vem a seguir. Com ele em mãos, valem estas perguntas, nesta ordem:

· Primeiro, qual é a sua margem real de renda, descontando compromissos que já existem, e não só a renda bruta que aparece no contracheque?

· Segundo, qual entrada você realmente tem, separada com folga do valor que vai cobrir ITBI, registro e taxas de fechamento, que juntos costumam pesar de 3% a 5% do valor do imóvel?

· Terceiro, qual prazo faz sentido para o seu momento, sabendo que prazo mais curto significa parcela mais alta e menos juros totais, e prazo mais longo é o inverso?

· Quarto, depois de reservar entrada e custos de fechamento, ainda sobra uma reserva de emergência capaz de sustentar alguns meses de parcela num imprevisto?

Nenhuma dessas perguntas exige um cálculo sofisticado. Exige olhar para o financiamento como o que ele realmente é: não uma aprovação de crédito, mas uma reorganização do seu orçamento por um período que, para muita gente, vai ser mais longo do que qualquer emprego que já tiveram.

Fazer essas contas de cabeça, espalhadas entre simulações de banco e anotações soltas, é o jeito mais fácil de perder o fio da meada bem na hora que mais importa organizar tudo.

Para fechar

Financiar um imóvel continua sendo, para a grande maioria das pessoas, o caminho mais realista para sair do aluguel e começar a construir patrimônio de verdade. O financiamento em si não é o risco. O risco é entrar nele sem ter feito a lição de casa antes.

Pra ajudar nessa organização, vou disponibilizar gratuitamente no meu site, www.vitordavanzo.com.br, uma planilha pra organizar o orçamento pensando no financiamento, reunindo entrada, parcela, custos de fechamento e reserva num único lugar. É lá também que você encontra minhas redes sociais e outros conteúdos sobre finanças, investimentos e mercado financeiro. Se depois de organizar as contas você sentir que precisa de um acompanhamento mais próximo, pode me procurar por lá. Para mais informações sobre financiamento imobiliário, acesse www.jrdavanzo.com.br .

Um exercício prático que já ajuda antes mesmo de baixar a planilha: pegue sua renda líquida atual, subtraia os compromissos que já existem, e veja quanto sobra de verdade depois de uma parcela hipotética de financiamento. Esse número, e não o valor da entrada, é o que vai dizer se este é o momento certo para comprar, e se o financiamento vai trabalhar a seu favor pelos próximos anos, que é exatamente o que ele deve fazer.

Se você chegou até aqui, meu muito obrigado. Espero de coração que essa leitura tenha deixado algo com você, mesmo que seja só um pouco a mais de conhecimento sobre mercado. É exatamente por isso que eu escrevo: Descomplicar as finanças, e irmos juntos, um passo de cada vez

Eu sou Vitor Davanzo, Especialista em Investimentos e Planejador Financeiro CFP®. Te espero na próxima leitura!

Conteúdo do artigo

Este texto tem finalidade educativa e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras dependem do seu objetivo, prazo e tolerância a risco.

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